Saturday, October 30, 2004

Solidão

Amanheço e a solidão me toma em seus braços mornos. E, sussurrando teu nome nos meus ouvidos, beija, lúbrica, cada centímetro do meu corpo, vasculha cada recanto oculto, a desvendar meus segredos. Ela me vira do avesso, e eu, avessa a qualquer lógica de tempo e horas, me deixo. E crava, faminta, seus dentes, rasgando a minha alma, expondo tantas esperas. E brinca com esse meu desejo antigo, desbotado, de entrega. Acompanha meus passos em todas as horas do dia e me despe da esperança. Invade espaços, não dá trégua, não se deixa esquecer e nunca adormece. E me segreda doces mentiras, que bem sei, e ainda assim , aceito, e colho, cada uma delas, com o cuidado de quem colhe flores ou observa estrelas. Minha solidão não é mansa, é dura, tem arestas. Tem farpas. Minha solidão é velha, antiga, mas não esmorece e renasce a cada dia. E, se adormeço, ela me embala docemente cantando as cantigas que teus lábios inventaram para mim.